A misoginia na obra de Tolstói.

Atualizado: Mai 7



“Não confies no cavalo no campo, nem na mulher em casa”; “a mulher é um instrumento de prazer”; “a mulher é feliz e alcança tudo o que pode desejar, quando ela deixa um homem seduzido. E por isso o maior problema da mulher é saber seduzi-lo. Assim foi e assim será.” A leitura de passagens como essas é intolerável para leitores atuais. Saber que essas abominações saíram da pena do grande escritor russo Liév Tolstói pode deixar leitoras e leitores desavisados de cabelo em pé.


O gigante Tolstói, autor de clássicos incontornáveis da literatura russa e universal como Anna Kariênina e Guerra e Paz, vivenciou com pouco mais de quarenta anos uma crise ética muito profunda, que o impulsionou a transformar radicalmente a sua vida. O Tolstói transformado passou a viver com simplicidade e buscou se desvencilhar da sua classe social (a nobreza) e se aproximar do povo russo. Para completar sua transformação, Tolstói renegou a atividade literária, inclusive todas as suas obras anteriores, e passou a se dedicar à educação dos camponeses e à escrita de tratados doutrinários e religiosos. Para nossa sorte Tolstói não conseguiu se manter firme nesse propósito e em diversas ocasiões retornou à literatura, escrevendo outras obras primas que se somariam aos grandes romances já citados, escritos antes da crise.


Como afirmou Vladimir Nabokov, outro grande escritor russo, é difícil separar o pregador Tolstói do artista Tolstói. No caso de Sonata a Kreutzer, novela da qual as citações do primeiro parágrafo foram retiradas, o pregador muitas vezes tenta sufocar o artista. É o que ocorre quando o narrador da novela, um feminicida confesso, destila ódio contra as mulheres e condena a instituição do divórcio. É interessante chamar atenção para o fato de a novela ter sido publicada na década de 1890, período marcado por mudanças na condição das mulheres na Rússia.

Sob a sombra do domostroi, um código de comportamento instituído ainda no período medieval que estipulava que a mulher deveria ser boa esposa, submissa, humilde e encerrar sua existência no âmbito do lar, as mulheres russas foram oprimidas e silenciadas durante séculos. Apenas em meados do século XIX, quando a questão feminina começou a ser pautada no debate público, as mulheres começaram a gozar de alguns direitos básicos. A questão feminina baseava-se em um tripé: direitos relativos aos trâmites matrimoniais, acesso à mesma educação que os homens e reconhecimento profissional. Assim, pela primeira vez em muitos séculos, a mulher russa, dependendo do contexto social ao qual estava submetida, se viu livre para escolher o próprio marido e pleitear o divórcio.


É esse tipo de discussão que vem à tona em Sonata a Kreutzer e serve como um disparador para que o protagonista da novela narre o seu drama conjugal, cujo desfecho foi um ato criminoso. Não é possível simpatizar com o personagem principal da trama, mas também não é possível manter-se indiferente ao que é narrado por ele. Como pontuou o tradutor Bóris Schnaiderman, apesar das opiniões indefensáveis a novela nos deslumbra com seu “tom arrebatado” e visceral.


Dica: Vale a pena conferir La Sonate à Kreutzer, filme dirigido por Éric Rohmer. O filme é uma adaptação da novela de Tolstói e conta com a participação de nomes como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut como figurantes. Uma das locações é a sede da redação da importante revista Cahiers du Cinéma.


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A AUTORA

Giuliana Almeida é bacharel em História (USP). Doutora e mestre em Literatura e Cultura Russa pela FFLCH/USP. Realizou estágio de pesquisa na Universidade de Berkeley, Califórnia, durante o mestrado e estágio doutoral na Universidade Queen Mary de Londres. Atualmente é pesquisadora e sua pesquisa concentra-se na história cultural russa oitocentista, nas escritas (auto)biográficas e nos pontos de contato entre História e Literatura. Já ministrou os cursos na Livraria Mandarina, Tapera Taperá, Sala Jaú e Sesc. É autora do livro Pelo Prisma Biográfico, Joseph Frank e Dostoiévski (Editora Desconcertos).