Tarô e Arte - O Tarô como instrumento de criação

Atualizado: 23 de ago.


Existe uma cultura que se apropria do Tarô para construir lugares místicos, prometendo respostas dogmáticas ou cármicas, se espalhando entre as pessoas com muita facilidade. A vida a princípio é um horror. Estamos condenados à dor, às dificuldades e aos processos de transformação, sejam eles psíquicos ou físicos. Mas o principal: estamos condenados a um fim. E esse entendimento da nossa finitude faz muitos de nós buscarmos respostas e sentido para a nossa vida.


Nossa natureza mimética, o nosso aprendizado através da cópia do que o outro faz, cria também relações. E essa forma de aprendizado traz uma espécie de calmaria quando aprendemos a fazer algo a partir do outro. A partir dessas imitações, criamos o sentimento de coletivo, de acolhimento, de pertencimento a um grupo e nos agarramos ao que nos ensinam. Mas ao mesmo tempo, uma espécie de radicalização facilmente pode nos dominar.


Não temos nenhuma dimensão daquilo que não sabemos, do que não nos foi ensinado. E sobre o que não sabemos, podemos exemplificar como se fosse uma espécie de muro que obstrui nossa visão. E na parede desse muro, somente um cartaz colado com escritos, sem nenhuma explicação. Esse cartaz nos indica o que tem do outro lado. Mas como saber se não conseguimos ver o que está do outro lado e, principalmente, como podemos ter uma opinião sobre o que está do outro lado?



Muito do que eu aprendi transitando ao lado de artistas contemporâneos foi a necessidade de conhecermos nosso corpo, suas limitações e sua sabedoria inerente. Se não me relaciono com determinada experiência, como eu posso traduzi-la ou compartilhá-la com o outro? Ou mais... Como eu posso fazer qualquer espécie de crítica a partir da limitação que eu possuo? Eu não sei o que está atrás daquele muro.


Noto que muitos conhecimentos ancestrais são vítimas desses dois apontamentos que faço nessa introdução:


1. existe uma cultura que se apropria somente dos adereços e adornos desses conhecimentos ancestrais, seja o tarô, a acupuntura, ou outras práticas (eu não estou falando do termo político de apropriação cultural aqui).


2. existe também uma série de críticas sem fundamentos de quem não possui conhecimentos das tais práticas e as reduzem a uma visão limitante de experiências que nenhum cartesianismo dá conta. Sendo essa a pessoa que resume tudo a charlatanismos, misticismos, etc.


Um resumo bem direto sobre o que estou falando: O tarô não é somente algo ligado às bruxas do tiktok e muito menos está está limitado à falta de conhecimento daqueles que fazem cosplays do ceticismo de Carl Sagan no YouTube.


Bom, mas o que de fato o tarô pode ser?


Quando nos afastamos dessa visão esteriotipada, podemos olhar para o tarô sob uma ótica muito mais interessante, principalmente quando somos artistas e não precisamos nos vincular a nenhuma falsa verdade. O tarô, antes de tudo, ele pode ser o que você quiser que ele seja. - O tarô é livre! - como diz Sallie Nichols, autora de um dos principais livros sobre o Tarô de Marselha.


O tarô pode ser uma mera coleção de cartões ilustrados; um museu, como diz meu grande amigo tarólogo Guille LeFou; uma fonte de inspirações; um oráculo que responda nossas dúvidas; uma poesia; um jogo ou uma brincadeira; um companheiro; um confidente; o tarô é livre. E com essa liberdade também podemos ressignificá-lo. Podemos questionar o sentido das suas cartas, podemos gostar, desgostar das respostas que encontramos. Podemos tratá-lo como algo que nos instigue mentalmente até a exaustão. E essa definição é do próprio tarô. Perguntei a ele como ele mesmo se definia e sua resposta foi a carta '10 de Espadas'.


O tarô é livre e essa talvez seja sua característica mais importante. Algo começa a ficar muito claro sobre a sua essência, quando entendemos essa liberdade que temos ao nos relacionamos com ele. Pois essa liberdade vai muito além da própria definição de liberdade. Quando ampliamos nosso conhecimento sobre sua forma, ele traz consigo distintas formas de olharmos para um situação de de como nos relacionarmos com os nossos caminhos. Obviamente, essa é a relação a qual eu tenho capacidade de entender hoje, com meus trinta e sete anos, acreditando que existam tantos outros caminhos ainda velados que somente o tempo e a dedicação poderão revelar sobre o tarô.


Mas onde entra a arte nessa história?


Somos seres narrativos. Vivemos nossas vidas sob alguns aspectos que aprendemos com a dramaturgia e continuamos a aprender com sua evolução. Há diversas correntes, principalmente políticas, que tentam condenar essa forma aristotélica de olharmos formalmente ou estruturalmente para os acontecimentos na nossa vida. Como por exemplo, associarmos as ideias de começo, meio e fim das nossas vidas aos atos de uma peça teatral: o primeiro, o segundo e o terceiro ato.


Existem argumentos interessantes daqueles que defendem que essa organização é cerebral e provém de uma ilusão da nossa percepção. Que o caos da vida não deve ser igualado aos elementos que utilizamos para criarmos nossas histórias. Bem, estejam certos ou não sobre essa argumentação, ainda assim somos seres que constroem todas as relações através de narrativas, anedotas, metáforas e tantas outras figuras que a linguagem nos proporciona.


É olhando para a vida sob essa ótica das narrativas clássicas que eu trago o tarô para perto do meu processo de criação artística. É o que mais me interessa hoje. Não olho para o tarô como um oráculo que traga previsões sobre o futuro. Para isso, precisaria acreditar em outros conceitos filosóficos sobre os nossos caminhos que não fazem muito parte da minha formação. O tarô nos permite organizar elementos, acontecimentos, ações de um enredo. Ele também elucida as características psíquicas de cada personagem envolvido nessas ações, trazendo à tona questões íntimas da sua psique ou da psique de outras pessoas envolvidas. E muitas vezes, orienta um caminho a ser seguido, seja ele benéfico ou não para o personagem.


Note que estou falando "personagem", mas da mesma forma que elaboraria a dramaturgia de um ser ficcional envolvidos na trama, eu utilizo o tarô para também identificar esses mesmos elementos na vida real. Bruxaria? Magia? Pacto com o diabo? Loucura? Obras do acaso? Definitivamente, não.



Toda a parte mística do tarô não me interessa. Não critico quem faça por esse viés, afinal, o tarô é livre. Mas não me sinto confortável. Olha para o tarô de forma quase pragmática, mas um pragmatismo muito diferente do que estamos habituados. Eu tento ao máximo olhar a vida pela ótica Taoísta e me apropriar de uma forma de encarar os acontecimentos da vida por uma perspectiva distinta da nossa cultura ocidental.


Não olho para os eventos da vida como mero acaso, muito menos faço afirmações de que tudo é caos . Não encaro os acontecimentos como destino ou carma, mas olho para eles como confluência, atrações, organizações. As coisas acontecem por fazerem parte de uma relação entre o meio externo e o interno. Uma espécie de narrativa que contamos para nós mesmos e que se relaciona com os acontecimentos a nossa volta. Narrativa essa que muitas vezes somos incapazes de decifrar. E quando uma coincidência acontece, eu presto muita atenção nos elementos que coincidem, os encarando como uma das nossas capacidades de deciframos o seu sentido, o seu simbolismo. Uma espécie de habilidade que possuímos para interpretar esse instante e comparar o evento em si, com aquilo que ocorre dentro da nossa psique. Confuso?

É realmente confuso. Devo concordar. Conceitos abstratos são muito difíceis de traduzir em raciocínios claros. E tudo isso levou muito tempo para eu começar a mudar a minha forma de me relacionar com as avalanches de evento da minha vida. E acredito que essa forma de olhar para os acontecimentos é uma das experiências por trás daquele muro que não sabemos o que esconde. No cartaz colado na parede do muro estão escritas algumas palavras: Tarô; Sincronicidade; Individuação; Oráculo; I Ching.


Não adianta querer ter uma opinião sobre o tarô se você não se debruçar sobre o próprio tarô. Não adianta dizer que é charlatanismo, truque, coisa de gente burra, sem parar diante daquelas imagens e experimentar diferentes jogos, dos diferentes tarôs e não estar aberto para sentir o que é a sincronicidade. E mesmo que você pratique, estude, talvez, por muito tempo não encontre as respostas que procura. Mas respostas a gente encontra procurando e não nos limitando aos escritos de um papel colado na frente de um muro.


***


Dicas para trabalhar criativamente com o tarô.


Quando tiver curiosidade, compre um tarô e deixe sempre ao seu lado. Sempre que você tiver uma dúvida ou uma pergunta, embaralhe as cartas e escolha uma. Olhe sempre para essa carta por algum tempo e tente fazer a leitura da situação ilustrada. Olhe para os personagens envolvidos, olhe para o ambiente, para os detalhes. Tudo que vier à sua mente é de extrema importância para te ajudar a responder a pergunta que você fez. Mesmo que você fique confuso, continue a praticar. E evite fazer a mesma pergunta mais de uma vez.


O tarô normalmente possui 78 cartas separadas em dois grupos:

  • Arcanos Maiores (22 Cartas)

  • Arcanos Menores (56 Cartas)

Eu aconselho que você jogue sempre com o baralho completo. Algumas pessoas no início separam os maiores do menores e estudam separadamente. É uma forma interessante de estudar, afinal, o tarô é livre. Seria interessante talvez começar com um baralho contemporâneo, pois seus Arcanos Menores são cartas com uma narrativa explicando os naipes e os números. Nos tarôs clássicos, os Arcanos Menores são mais complexos de fazer uma primeira leitura sem o hábito de ler o tarô.



Um outro exercício mais voltado para a prática da escrita seria você tirar cartas de tarô para definir certas características da sua narrativa. Seja características dos personagens, do enredo, de alguma situação específica ou de uma relação. Através de perguntas você pode ir analisando as situações que o tarô te apresenta como orientação. Lembre-se: fazer perguntas para o seu personagem sempre é um bom instrumento, mesmo sem a utilização do tarô.


Sugestão de perguntas:

  • "O que o personagem pensa sobre determinado assunto?";

  • "O que o personagem faria se ele estivesse em tal situação?";

  • "O que ele diz sobre tal pessoa e o que ele realmente pensa no seu íntimo sobre essa pessoa?" (Talvez jogar com duas cartas? Uma para cada pergunta.";

  • "O que esse local significa na vida desse personagem?";

Repare que você deixa de se relacionar somente com as suas próprias ideias quando você tem um instrumento como esse nas suas mãos. É uma ótima ferramenta para desbloqueio criativo. E isso vale tanto para os seus personagens, quanto para você no seu dia-dia. Afinal, você é um personagem da história que você conta para si mesmo.


Sempre que quiser ampliar seu conhecimento sobre o tarô, compre um livro que explique as cartas e os arquétipos ali representados nos desenhos. Alguns são pinturas, outros são gravuras e etc. Os tarôs são universos plásticos riquíssimos.



Para você que vai começar, eu sugiro um baralho que irá ajudar a clarear muito a sua relação com a simbologia por trás de cada carta. O Tarô Mitológico foi elaborado pela Juliet Sharman-Burke e Liz Greene e suas cartas representam diferentes situações da mitologia grega. Cada carta dos Arcanos Maiores é representada por um Deus Grego e as cartas dos Arcanos Menores possuem uma continuidade narrativa apoiada nos mitos de diferentes heróis. Essa narrativa ilustrada nos ajuda a entender a simbologia de cada naipe, dos números e dos elementos que cada carta possui. Com o tempo, isso nos facilita a entender um sentido maior de cada carta, mesmo quando passamos para um tarô mais complexo, sem ilustrações narrativas nos Arcanos Menores, como é o caso do Tarô de Marselha.


Espero que esse texto esclareça algumas ideias sobre o tarô e sobre formas de lidar com o processo criativo. Espero também que elucide muitas questões que possam existir no seu imaginário, principalmente abrindo horizontes sobre como se relacionar com esse oráculo Gostaria que você me contasse depois suas experiências e as perguntas que andou fazendo. Conte as respostas do tarô também.


Um grande abraço.


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Do autor: Caetano Grippo é cineasta, artista plástico e professor. No Espaço Rasgo, além de coordenador é idealizador e professor dos cursos de narrativas, fotografia e direção.



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