As artistas apagadas da América Latina.

Atualizado: Jun 2



Como percebemos a história? Conhecemos as versões que nos são dadas pelos historiadores, sejam elas o que aprendemos na escola através dos nossos livros didáticos, ou o aprofundamento que buscamos ao longo da vida no intuito de aprimorar nossa visão de mundo. Confiamos nessas versões por nos serem transmitidas através de fatos documentados, analisados sob um julgamento criterioso e comprometido em descobrir a verdade e verificar sua autenticidade.


O que tendemos a nos esquecer, entretanto, é que esses registros dos acontecimentos investigados e analisados pelos historiadores não estão isentos de contestação, uma vez que os elementos narrativos que utilizamos para compor essa janela para o passado também atravessam a curadoria individual dos personagens de cada época. Cada ser humano que existiu e contou sua história esteve sujeito a um contexto cultural, um ponto de vista ideológico, uma construção de normas e regras que regeram seu tempo e todos esses aspectos moldam profundamente a forma como decidimos discorrer sobre o mundo. Por mais genuínas que possam ser nossas intenções de deixar registros verdadeiramente imparciais, seremos sempre limitados pelas nossas experiências como indivíduos e isso, por si só, compõe uma lente através da qual analisamos os eventos e os outros.


Portanto, talvez mais importante do que perguntar “como percebemos a história?”, seja levantar a pergunta: quem escreve a história?


Terminamos por ouvir com muito mais frequência as vozes daqueles que se saíram bem sucedidos sobre outros. Quantas não são as produções hollywoodianas que exaltam o heroísmo do povo americano durante a Guerra Fria, retratando os russos como um inimigo perigoso e ameaçador que precisa ser derrotado a qualquer custo? Podemos ver exemplos dessa caracterização não apenas em filmes de guerra, como “Amanhecer Violento” e “Ivasion USA”, como também em produções posteriores e extremamente populares como a série “Chernobyl” de 2019. Mas conhecemos em muito menos volume as produções russas que discorrem sobre os mesmos eventos sob um ponto de vista ideológico diferente, como é o caso do curta “O Milionário” de Vitold Bordzilovsky e Yuri Prytkov, que retrata com imenso sarcasmo a postura e os ideais americanos.


Não procuro aqui defender a superioridade moral de nenhum desses pontos de vista, apenas ilustrar, através de um exemplo isolado, que ninguém se posiciona como o vilão de sua própria história e isso transparece na intenção das produções artísticas de cada tempo e povo. A grande questão é que aqueles que possuem ou impõem mais poder sobre os outros tendem a ter mais páginas em branco para escrever sobre si mesmos como protagonistas. Essa relação de apagamento cultural e histórico daqueles tidos como “inferiores”, não se aplica apenas à guerra, mas também à relação de dizimação dos povos indígenas nas américas, ao racismo, decorrente da escravidão e profundamente engastado em nossos sistemas sociopolíticos, e também, indiscutivelmente, à sistêmica restrição de atuação das mulheres nos mais diversos cenários, inclusive o artístico.


Compreendo que nas últimas décadas houve um esforço ativo, por parte daqueles que estudam a história, em lançar nova luz sobre as narrativas dos que foram “derrotados” propondo uma crítica às estruturas hegemônicas e favorecendo o ponto de vista dos grupos minimizados e inferiorizados. Esse processo de correção de injustiças, entretanto, é longo e encontra grande dificuldade frente às construções de poder que foram estabelecidas ao longo dos séculos, ou mesmo milênios.


Essa exata dificuldade tende a se explicitar no trabalho do historiador da arte, por mais bem intencionado que este seja, quando procura relatar os eventos da nossa história. Seu ofício é, por base, masculino e acaba por exprimir juízos de valor também referentes a gênero durante o processo de construção dos recortes temporais que definem nossa visão de mundo. Como consequência, quando pensamos na mulher e na arte, tendemos a restringi-la a uma percepção específica, exaltando virtudes que são “inerentemente femininas”, sob um ponto de vista masculino, como a beleza, o erotismo, a natureza, a devoção e a maternidade. Ao mesmo tempo, grande parte das produções autorais de mulheres foram abandonadas ao esquecimento por não terem sido consideradas de qualidade, por não terem despertado interesse de público e crítica ou por terem rompido com os códigos e as expectativas que eram atribuídas a elas. Incontáveis mulheres encerraram suas trajetórias artísticas cedo demais, ou nem mesmo as começaram, devido às dificuldades que encontraram em se manter ativas dentro de um contexto que as desfavorecia, como é belissimamente ilustrado pela escritora Martha Batalha no livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”.


Especialmente na América Latina, continente cuja história foi marcada em abundância pela presença de governos ditatoriais conservadores, a atuação livre da mulher, tanto no campo intelectual, quanto político, foi alvo de imensa repressão e sua militância não foi adequadamente refletida na curadoria desse tempo.


“(...) a contagem feita pelo grupo ativista Guerrilla Girls em 2017, por ocasião da exposição no Masp, apontou que apenas 6% do total de artistas com obras em exposição na sala do acervo permanente do museu eram mulheres.” (Revista Zum). Nos inserimos em um contexto restrito, tendemos a nos aproximar daqueles com quem compartilhamos ideias e visões de mundo similares e formamos um monolito social que decide enxergar apenas o que lhe convém, repudiando os que nos trazem informações com as quais não queremos lidar e, como consequência, tendemos a conceber a realidade de forma distorcida. A verdade é que, apesar das amplas conquistas de movimentos ativistas e da grande abertura de espaço para as mulheres no campo da arte, a representatividade desse grupo ainda se mantém distante da equidade almejada. Apenas 6% do total de artistas com obras em exposição permanente no museu eram mulheres, me pergunto o quanto esse número diminuiria se contássemos apenas as mulheres latino-americanas.