Fuja: um crítica sobre a construção e o desenvolvimento de personagens

Atualizado: Mai 26



Filmes que caibam dentro de mim

e que eu caiba dentro deles.


Os filmes de terror, horror ou suspense geralmente são aqueles que melhor constroem alegorias sobre as questões humanas, sociais, coletivas e individuais. E a alegoria não é um mero jogo comparativo entre realidade e fantasia. Alegorias são estruturas concisas e simbólicas que nos permitem criar um diálogo entre a realidade e o inconsciente, elucidando questões, trazendo à tona sintomas sociais e tantas outras potências viabilizadas por essa figura de linguagem.


“Fuja” é um filme de gênero. Assim a Netflix o vende e assim o filme se apresenta, logo no início, pela forma como contrasta suas imagens, pelo corpo sonoro e pelo tom com que as personagens interagem. E, como na maioria dos filmes de terror, somos rapidamente apresentados ao tema: uma mãe extremamente controladora não permite que sua filha tenha uma vida normal em prol de uma superproteção contra as ameaças do mundo.



Logo nos primeiros minutos suspeitamos qual caminho a narrativa vai seguir, afinal, o trailer, a sinopse e todo o material de divulgação já trabalharam a temática principal e deram os devidos "spoilers". E não há problema algum em explicitar a sua temática comercialmente, afinal, um filme precisa ser visto e cobrir o seu investimento. Porém, o que me traz desconforto é a forma com que a trama se desenrola e se estrutura. Nenhuma cena acrescenta nada ao corpo da narrativa, nenhuma personagem tem sua complexidade psicológica expandida e o que poderia ser uma rica narrativa sobre os tempos atuais se resume inteiramente em uma frase já antes exposta: uma mãe extremamente controladora não permite que sua filha tenha uma vida normal...


A partir daqui, sigo com comentários que revelam a trama principal do filme.


Nossa protagonista é Choe, uma adolescente esforçada que superou todos os desafios de sua deficiência física. É inteligente, simpática, de uma índole inquestionável. Em dado momento da história, a menina se depara com evidências de que sua mãe tomava atitudes inaceitáveis para impedi-la de sair de casa, como por exemplo a fazer ingerir remédios que agravavam a sua condição. A partir desse momento, o filme segue com uma sucessão de cenas que não agregam mais nada ao caráter da personagem ou à sua relação com a mãe, sem ainda ampliar o nosso entendimento sobre a trama. Tudo gira em torno dessa descoberta e o que vemos a partir daí são as lutas e tentativas da protagonista para resolver a situação e sobreviver. Fica evidente que o filme não possui nada além de uma ideia pronta, explorada incansavelmente. Uma mera luta entre o bem e o mal.



Nos últimos anos, o mercado de séries ascendeu exponencialmente, e ficamos habituados a protagonistas em uma longa jornada de dezenas de episódios. Tendo esse parâmetro em nosso horizonte, é difícil encarar um filme com personagens que não possuem nenhum desvio de caráter, ou sequer contradições. Pode ser que muita gente se relacione com a narrativa com profundidade, identificando-se no conflito maternal, mas considero de grande importância o hábito de se olhar para os filmes além de sua ideia central, de sua intenção. Não quero me deparar com uma ideia pronta sobre o mundo, com uma garota moralmente perfeita que sofre nas mãos de uma mãe monstruosa. Melhor dizendo: com personagens que foram produzidos e não desenvolvidos, elaborados.


A diferença entre essas duas palavras - produzir e desenvolver - traz à tona uma distinção profunda a respeito do processo de criação artística, pois muitas vezes na ânsia de acertar, de conquistar o público e vender, seguimos fórmulas básicas de construção narrativa e não exploramos os potenciais que uma trama simples poderia potencializar caso os criadores aceitassem os desafios e convivessem com possíveis equívocos. Ao explorar a relação entre mãe e filha, poderiam, por exemplo, evocar a natureza mítica dessa relação e aludir a contos e histórias já narrados anteriormente nas mais distintas civilizações.