Uma análise sobre o filme "Garota Sombria Caminha pela Noite"



Garota sombria caminha pela noite” (A girl walks home alone at night), é um longa de 2014, dirigido por Ana Lily Amirpour, uma mulher nascida na Inglaterra, mas de origem iraniana. As marcas iranianas são claras no filme todo. Mesmo que ele tenha sido filmado nos Estados Unidos, o idioma falado é o persa, os atores são iranianos, e a cidade onde se passa o longa é, ficcionalmente, iraniana. Este contexto geopolítico é importante para compreender a dimensão do que pode significar uma vampira que mata homens que fazem mal às mulheres, tendo em vista que histórias de misoginia são comuns no cinema mundial e principalmente no cinema iraniano, gestado em uma sociedade patriarcal e opressora, onde as mulheres ainda têm sua liberdade de expressão muito limitada e por vezes nula. A vampira, que é chamada de “Garota” o tempo todo, não demonstra fome ou necessidade de sangue humano, ela seleciona suas vítimas e tem critérios: apenas mata homens machistas que fazem maldades contra as mulheres.



Em “Garota sombria caminha pela noite” (2014), a monstruosidade feminina está presente como uma forma de desafiar os estritos códigos de nacionalismo e religião, desconstruindo noções de pureza, patriotismo e masculinidade. A diretora Ana Lily Amirpour utiliza-se de elementos visuais clássicos dos filmes de vampiros para ressignificar estes, criando uma narrativa não usual. A primeira das tradições que pode-se citar como um exemplo de reinvenção é o mito da levitação e do vôo que acompanha a personagem vampira desde os primórdios das suas primeiras lendas, podendo elas estarem metamorfoseadas em morcegos ou não. No caso do filme, a levitação da vampira se dá através do uso do skate, que é utilizado como meio de locomoção e também é sinal de resistência feminina para muitas comunidades árabes pois em países como o Afeganistão – que compartilha língua, cultura e história similar ao Irã – as garotas são comumente proibidas de andar de bicicleta, e então aprendem a andar de skate para conquistar sua própria liberdade, cultura e estilo de vida que o skateboarding proporciona.


Uma outra subversão que ocorre no longa é a substituição da tradicional vestimenta dos vampiros, a capa, pelo uso do hijab, veste típica do Islã que frequentemente do ponto de vista ocidental está associada à repressão e retirada da liberdade feminina. A palavra "hijab" vem do árabe "hajaba" e significa ocultar do olhar, ou esconder. No contexto atual, hijab é a modéstia cobrindo a muçulmana. O hijab é muito mais do que uma vestimenta. É todo um comportamento, modos, fala e presença em público. A roupa é apenas uma parte do ser total.




Contudo, ao contrário do que se é esperado de uma mulher que usa este tipo de vestuário, a protagonista é totalmente livre, independente, forte e não obedece a ordens vindas de ninguém, seguindo Universidade Federal do Espírito Santo Programa Institucional de Iniciação Científica Relatório Final de Pesquisa 6 seus próprios princípios, além de ser uma espécie de justiceira social da sua comunidade, uma vez que seleciona as suas vítimas, matando apenas os homens que cometem algum tipo de violência contra as mulheres. Além disso, outras mulheres aparecem no filme e nenhuma delas usa burca ou hijab, o que indica que a Garota opta por usá-lo. Tendo em vista que o filme é dirigido por uma mulher iraniana, isso pode ser encarado como uma forma de quebra de preconceito com as vestimentas tradicionais árabes, exibindo ao público do filme - em grande parte ocidental, já que ele foi filmado nos Estados Unidos e feito por uma produtora americana - que existem mulheres que gostam e escolhem usar o hijab, ou burca, e que estas peças de roupa nem sempre são sinônimo de limitação feminina, podendo ser sim até um símbolo de resistência e liberdade, como no caso do filme.


Quando a protagonista não está coberta pelo hijab, as suas roupas também fogem ao padrão de figurino sexy e decotado que normalmente são empregados às personagens vampiras no cinema, que normalmente servem para potencializar a sua sexualidade e sedução de forma a concretizar as fantasias sexuais masculinas, fazendo com que as personagens tornem-se então meros objetos do olhar desse público. A personagem usa roupas típicas de uma garota que esteja na faixa de idade dos 20 anos: blusa listrada, calça preta e tênis. O único momento do filme em que ela aparece com os seios à mostra é quando ela está tomando banho na banheira, em contexto totalmente dessexualizado, exibindo apenas um fragmento do cotidiano da Garota que é colocado de uma forma natural.