Fellini e Nino, uma simbiose perfeita

Atualizado: Mai 7



Os filmes oníricos de Federico Fellini deram voz a diversos elementos cinematográficos que, para além da exploração do inconsciente, atingiram também a criatividade musical do compositor Nino Rota. Se a cidade de Roma foi um importante integrante de seus filmes, as trilhas sonoras de Nino também foram parte fundamental deles. Fellini e Rota trabalharam juntos por mais de 30 anos, numa parceria profícua que resultou em mais de 16 filmes e muito encantamento para nossos olhos e ouvidos.


Fellini nasceu em Rimini em 1920. Nino, em Milão em 1911, onde compunha uma família de músicos. Anos depois, ambos viriam a residir em Roma. Nino Rota, cuja formação musical se deu no Conservatório de Santa Cecília (Roma) e no Instituto Filadélfia (EUA), começou a trabalhar no cinema antes de Federico, produzindo, a partir de 1933, trilhas sonoras para obras de grandes diretores italianos, tais quais Franco Zeffirelli. Assim, quando Fellini iniciou sua atuação no cinema, Nino já possuía uma carreira consolidada que não parava de crescer, levando-o até mesmo ao desenvolvimento da trilha de “O Poderoso Chefão” (1972), dirigido por Francis Ford Coppola.


Em meados dos anos 40, o cenário do cinema na Itália era fervilhante e Fellini logo se viu participando de grandes movimentos como o neorrealismo italiano. Contava com forte sensibilidade e trato para retratar o país e sua cultura - seu cinema era político ao refletir sobre questões sociais e relações cotidianas entre as pessoas, realizando filmes inovadores como "8 ½” (1963), pelo qual ganhou marco na história do cinema. Logo em seu primeiro filme, “Abismo de um Sonho” (1952), chamou Nino Rota para fazer a trilha musical. Desse momento resultou uma parceria onde o músico se fez capaz de traduzir e fazer transparecer todos os sonhos e circos da imaginação de Fellini.



Uma curiosidade é que, durante as filmagens, Fellini costumava colocar músicas antigas de fundo para criar o clima de cada cena. Na época, a Itália mantinha a tradição de dublar as vozes dos filmes, assim, o som ambiente gravado era alterado na pós-produção. Quando todo esse processo acabava, ele se encontrava com Nino para dizer que estava muito apegado às músicas que havia usado nas cenas e que não queria mais mudá-las. Nino, com sua maneira afetuosa e sonhadora de ser, concordava com ele, dizendo que deveriam mesmo ser mantidas. Contudo, isso não acontecia em silêncio: enquanto falava, fazia soar notas em seu piano.


“'O que era isso?' perguntava eu, daí a pouco. 'O que você está tocando?'

'Quando?' perguntava Nino, com ar distraído.

'Ora', insistia eu, 'Enquanto você falava, estava tocando alguma coisa'

'Ah é?', dizia Nino, 'Não sei, não me lembro mais'.

(...)

Ao final, eu lhe dizia 'é lindíssimo!'"


F. Fellini em "Entrevista Sobre o Cinema",

realizada por Giovanni Grazzini (De. civilização brasileira, 1986)


Dessa maneira, as trilhas que Nino compunha acabavam sendo incorporadas aos filmes, substituindo as músicas que Fellini dizia não querer mudar. Assim seguia a parceria entre ambos, muito natural e fluida, apesar da falta de formação musical de Fellini. Aliás, Nino muitas vezes também não queria saber do enredo do filme. Todavia, os dois diziam que “compunham juntos”, mesmo que se constituíssem de uma dupla onde um é leigo ao universo das notas e o outro está alheio às narrativas cinematográficas. O diálogo entre os dois fluía tão extraordinariamente bem que Fellini chegava a ter a sensação de que também escrevia as músicas, tamanha a criatividade e o envolvimento de Nino no processo. Para eles, trabalhar juntos era um momento de felicidade.