Hitchcock e as pinturas de Edward Hopper



Os filmes de Alfred Hitchcock (1899 - 1980) são admirados pelo mundo inteiro, inspirando uma legião de pessoas e arte cinematográfica em si. O grande cineasta, por sua vez, também se inspirava em outras artes e artistas para fazer seus filmes: as obras do pintor norte-americano Edward Hopper (1882 - 1967), que retratava a solidão com um tom de mistério, são vistas como inspirações para o universo hitchcockiano.


Através de suas pinturas, Hopper conseguia registrar climas e sentimentos, sem mostrar tudo no quadro. Eram cenas de algo prestes a acontecer ou que já haviam acontecido, nunca de quando “a coisa” estava acontecendo. Dessa maneira, sempre “faltava algo” em seus registros de figuras solitárias do século XX, o que levava ao espectador a completar a cena e criar sentidos em sua mente. Esses momentos e técnicas também interessavam muito a Hitchcock: as cenas antes do clímax, famosas e sempre presentes em seus filmes.



A inspiração da arte de Hopper na composição de cenas pode ser encontrada em toda filmografia do diretor inglês, mas é particularmente evidente em “Janela Indiscreta”, de 1954. No filme, James Stewart interpreta L.B. Jefferies, um fotógrafo profissional que está confinado em seu apartamento por ter quebrado uma perna enquanto trabalhava. Entediado, começa a observar os vizinhos com um binóculo, até que repara certos comportamentos estranhos e passa a suspeitar que testemunhou um assassinato.


Assim como a força dos quadros de Hopper está no que ele escolhe excluir, da mesma forma é a tensão e o espetáculo de Janela Indiscreta, que está no que está escondido ou no que não é visto”, afirma Finn Blythe em artigo sobre o tema na revista Hero.


Hopper também pintava sob um olhar voyeur, o que acontece frequentemente em “Janela Indiscreta”. O espectador vira um cúmplice, observando as frágeis figuras que aparecem em sua visão, presenciando momentos que nem mesmo os personagens conseguem ver.


“(...) compare a pintura de Hopper 1928, “Night Window” e a personagem Miss Lonelyhearts. Ambas estão enquadradas parcialmente nuas, na privacidade de seus quartos, sozinhas. Ambas carregam uma sensação de invasão e talvez, ainda mais importante, uma constante sensação de isolamento, mesmo estando rodeadas de um denso cenário urbano.” volta a dizer Finn Blythe.




A luz dos quadros de Hopper também inspiraram Hitchcock, que fazia composições claras, contrastadas com cor e sombras. Ademais, é possível reparar na semelhança do hotel de Norman Bates, do filme “Psicose” (1960), com a pintura “A Casa ao lado da Ferrovia”, de 1925, feita por Hopper.



Tanto as pinturas quanto os enquadramentos de Hitchcock estão conectados pela visão de mundo (como e o que queremos realmente ver), além das temáticas de solidão, o olhar voyeur e a relação do indivíduo com o espaço. Novamente, é um caso da arte inspirando a arte.



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