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Monstruosidade Feminina

Atualizado: 26 de set. de 2023


 Tramas do Entardecer (1943, dir. Maya Deren)
Tramas do Entardecer (1943, dir. Maya Deren)

O que é um monstro? Embora muitos associem essa figura principalmente ao cinema de horror, poucos se detêm para refletir sobre a profundidade de seu significado e como ela está intrinsecamente ligada à ideia de diferença, muitas vezes de forma pejorativa.


No entanto, essa associação nem sempre foi negativa, e para compreender como as mulheres foram vinculadas a essa imagem monstruosa, bem como têm subvertido essa representação ao longo do tempo, é essencial mergulhar na história do monstro em si.


Nos primórdios, a monstruosidade era encarada como algo fascinante, desprovida de conotações de medo. A palavra "monstrum" no latim denotava "um objeto ou ser de caráter sobrenatural, que anunciava a vontade dos deuses". Essa concepção, no entanto, sofreu uma transformação drástica quando surgiram os "freak shows" ou os "circos dos horrores". Esses espetáculos começaram a explorar e ridicularizar aquilo que era diferente, transformando a diferença em entretenimento.



A partir desse ponto, tudo que destoava do comum passou a ser tachado de monstruoso e socialmente rejeitado. O conceito de monstro deixou de se limitar a anomalias físicas e expandiu-se para englobar mentes e comportamentos considerados monstruosos. A monstruosidade passou a ser associada às atitudes humanas que escapavam às normas estabelecidas.

The Love Witch (2016, dir. Anna Biller)
The Love Witch (2016, dir. Anna Biller)

A construção do imaginário monstruoso em torno da mulher remonta a séculos de história. Já no século II, na Grécia, os livros de medicina introduziram a teoria do "útero errante", que afirmava que o útero era um ser único, com movimentos e vontades próprias, como um ser dentro do corpo da mulher. Essa crença levou à associação da "histeria" exclusivamente às mulheres, sob a suposição de que elas não poderiam ser "normais" com um órgão móvel em seu interior. Desde então, a mulher tem sido vista como "o outro".


O corpo feminino passou a ser encarado com temor e, à medida que a figura do monstro tornou-se sinônimo de medo, as mulheres também passaram a ser consideradas monstruosas. Elas foram perseguidas, como ocorreu nas caças às bruxas, resultando na criação de diversos estereótipos femininos. Como resultado, as mulheres passaram a ser representadas predominantemente por perspectivas masculinas, muitas vezes de forma pejorativa.



Na ficção, o monstro sempre teve presença marcante. Durante muito tempo, o cinema de horror associou as mulheres à monstruosidade de forma não intrínseca, isto é, os atos monstruosos das mulheres raramente ocorriam por sua própria vontade; sempre havia uma justificativa externa, frequentemente relacionada a traumas e sofrimentos infligidos pelos homens. A mulher era retratada como incapaz de existir independentemente do homem, e suas reações a eles eram frequentemente violentas, transformando-as em monstros.


Garota Infernal (2009, dir. Karyn Kusama)
Garota Infernal (2009, dir. Karyn Kusama)

Atualmente, quando uma mulher se apropria da figura do monstro, isso representa um ato de resistência. É uma afirmação e um orgulho em relação à sua diferença, à sua não conformidade com as normas estabelecidas. Nesse contexto, a mulher retoma a ideia do monstro como um "outro", revivendo a virtuosidade e o fascínio que essa figura detinha nos primórdios da humanidade. Ao desafiar a perspectiva masculina sobre o "monstro" e assumir a monstruosidade feminina como algo positivo, as mulheres estão construindo um novo cinema de horror, redefinindo os significados atuais do termo "monstro" e criando narrativas mais diversificadas. Como disse Rebecca Harkin-Cross:


"Filmes de terror oferecem um espaço de fantasia para mulheres cujos corpos as traem. Quando a carne feminina invariavelmente ultrapassar seus limites, esta pode se tornar um local de transcendência, até mesmo de resistência. (...) O corpo monstruoso permite que ela atrapalhe o olhar patriarcal, reivindicando este poder como sendo seu."


A relação complexa entre a figura do monstro e a representação feminina ao longo da história revela como a sociedade frequentemente encarou a diferença com desconfiança e preconceito. No entanto, as mulheres têm desafiado essa narrativa, reivindicando o poder de se assumirem como "monstros" em uma atitude de resistência e afirmação da diversidade. Este movimento tem gerado um novo e fascinante território no cinema de horror, onde as histórias são contadas de perspectivas mais diversas e autênticas.


Se você se interessa por explorar ainda mais essa fascinante interseção entre o cinema de horror e a monstruosidade feminina, convidamos você a participar do curso "Cinema de Horror e Monstruosidade Feminina" ministrado por Rafaela Germano. Este curso oferece uma oportunidade única para mergulhar nas complexidades desse tema, analisando filmes emblemáticos, discutindo suas interpretações e explorando como as mulheres têm se apropriado do conceito de monstro para redefinir seu papel na narrativa cinematográfica e na sociedade.


Junte-se a nós nesta jornada de descoberta e reflexão sobre o poder do cinema de horror como uma forma de resistência e expressão feminina.





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