Monstruosidade Feminina

Atualizado: 15 de ago.



O que é um monstro? Muito comuns no cinema de horror, poucas pessoas param para associar que a figura do monstro quase sempre está ligada com o diferente, sob uma visão pejorativa. Contudo, nem sempre foi assim. Para entender como as mulheres passaram a ser associadas com essa figura monstruosa (atualmente negativa), e como subvertem isso atualmente, é preciso entender a história do monstro em si.


Tramas do Entardecer (1943, dir. Maya Deren)


No início, a monstruosidade era vista como algo fascinante, não associada ao medo. Em latim, monstrum significa "um objeto ou ser de caráter sobrenatural, que anuncia a vontade dos deuses". No entanto, o termo passou de uma maravilha à uma periculosidade maligna quando surgiram os freak shows, os “circos dos horrores”, que começaram a ridicularizar e transformar o diferente em espetáculo.


A partir disso, tudo que era “fora do comum” passou a ser considerado monstruoso, sendo socialmente rejeitado. O monstro passou a ser entendido como algo ou alguém que possuía anomalias físicas e, posteriormente, o corpo monstruoso passou a dar lugar para mentes monstruosas; assim, a monstruosidade passou a ser ligada com atitudes e comportamentos do ser humano.


O imaginário monstruoso construído acerca da mulher vem de muitos séculos. Os livros de medicina do século II, na Grécia, criaram a teoria do útero errante, que dizia que o útero era um ser único; achavam que ele se mexia e tinha vontades próprias, como um ser dentro da mulher. Acreditando nisso, os homens associaram a “histeria” apenas às mulheres, por achar que elas não poderiam ser “normais” com um outro ser dentro delas. Dessa maneira, desde de o começo da humanidade a mulher era vista como “o outro”.



The Love Witch (2016, dir. Anna Biller)


O corpo feminino passou a ser visto como temor e, como a figura do monstro começou a estar ligada com o medo, então as mulheres passaram a ser consideradas monstruosas também. Perseguidas (como nas caças às bruxas), diversos estereótipos femininos foram criados e, assim, as mulheres começaram a ser representadas apenas por perspectivas masculinas, de maneiras pejorativas.


Na ficção, o monstro sempre esteve presente. Por muito tempo, o cinema de horror associava as mulheres a monstruosidade não pura: isto é, os atos monstruosos das mulheres não vinham por conta própria, algo sempre tinha que acontecer antes (como traumas e sofrimentos, na maioria das vezes ligados aos homens). A mulher não poderia existir sem o homem e suas reações a eles sempre seriam violentas, tornando-as monstros.


Garota Infernal (2009, dir. Karyn Kusama)


Assim, atualmente, quando a mulher se assume o monstro, é quase como uma resistência. É assumir e se orgulhar de não ser “normal”, de não estar dentro das normas esperadas e, com isso, retomar o monstro para si, assumindo o lugar de “outro” como a virtude e fascínio que eram os monstros do começo da humanidade. Ao subverter o olhar masculino sobre o “monstro” e assumir a monstruosidade feminina como algo positivo, as mulheres constroem um novo cinema de horror, ressignificando os sentidos atuais do “monstro” e criando histórias mais diversas. Já diria Rebecca Harkin-Cross:


“Filmes de terror oferecem um espaço de fantasia para mulheres cujos corpos as traem. Quando a carne feminina invariavelmente ultrapassar seus limites, esta pode se tornar um local de transcendência, até mesmo de resistência. (...) O corpo monstruoso permite que ela atrapalhe o olhar patriarcal, reivindicando este poder como sendo seu."




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