O Grupo dos Cinco: Modernismo Brasileiro

Atualizado: 3 de set.



“[...] diante da nossa natureza tropical e virgem,

que exprime luta, força desordenada, e vitória

contra o mirrado inseto que o quer possuir.”

- Oswald de Andrade


Não é possível falar do Grupo dos Cinco ou do Movimento Modernista sem, inevitavelmente, recair sobre o complexo sentimento que pairava sobre o mundo após o final da Primeira Guerra Mundial.


Ao final dos anos 1800, antes da Guerra, duas novas formas de expressão artística surgem como decorrência simultânea uma da outra. A fotografia nasce para transformar em obsoleta a pintura enquanto forma de representação realista do mundo ao redor, sendo inevitavelmente mais eficiente na captação de texturas, luzes e instantes. Por decorrência, pela obsolescência da proposta existente para a pintura até então, novos artistas passaram a buscar nessa linguagem a expressão de um espírito novo, mais interessado em traduzir a materialidade da pincelada em sua natureza, do que apenas visões literais do espaço.


Esse é o início do Impressionismo, movimento precursor do ímpeto artístico que rejeitou o tradicionalismo e a rigidez das produções academicistas vigentes até o momento.


E então a guerra.


A Primeira Guerra estabelece um marco de desilusão no sentimento bucólico que paira sobre grande parte das produções impressionistas. Um mundo devastado e quebrado não mais se traduz nas paisagens campestres de Monet ou Cézanne, ou no cotidiano parisiense de Renoir. A complexidade emocional decorrente da destruição, da modificação grave de fronteiras geopolíticas, somadas ao rápido avanço de máquinas industriais e o estabelecimento de uma cultura de produção em massa, transformaram profundamente as formas de expressão artística do início do século XX.

Nesse contexto começamos a ver o nascimento das tão icônicas produções modernistas, emergindo nos mais diversos estilos e em diferentes lugares do mundo, mas majoritariamente na Europa: o Cubismo francês, o Futurismo italiano, o Expressionismo alemão e diversas outras. Todas buscando radicais rupturas com os cânones que regiam a arte até o momento.


São dessas escolas e dessa necessidade de expressão de sentimentos progressivamente mais abstratos que os artistas brasileiros iriam beber para compor o que seria o movimento modernista nacional. Anita Malfatti, com sua formação na Alemanha, Oswald de Andrade, com seu contato com o Futurismo na Itália e Tarsila do Amaral, tendo estudado em Paris, foram alguns dos artistas que trouxeram para o Brasil um novo entendimento sobre as possibilidades transformativas da arte, consagrando suas propostas para uma nova identidade nacional.


Voltando o olhar dessa análise para o Brasil, encontramos o cenário de relações de poder arcaicas, durante a República Velha, onde os oligarcas cafeeiros de São Paulo e Minas Gerais mantinham a alternância da regência do Estado exclusivamente entre si, e as diferenças sociais entre esses grupos coronelistas e os imigrantes e proletários apenas se agravavam. O modernismo brasileiro, portanto, volta sua atenção para as questões sociais existentes internamente, tomando consciência de si e construindo o desejo de se assumir como povo brasileiro.



Alguns antes, em 1917, Anita Malfatti realiza sua segunda exposição no Brasil, largamente transgressora, exibindo uma coleção de pinturas modernistas que recebem forte retaliação de outros artistas tradicionalistas do período, em particular Monteiro Lobato, que considera sua produção um desperdício de talento. Apesar das duras críticas, a repercussão a aproxima de Oswald de Andrade, que foi em sua defesa com um artigo publicado para o Jornal do Comércio.


“A impressão inicial que produzem seus quadros é de

originalidade e de diferente visão. As suas telas

chocam o preconceito fotográfico que geralmente se

leva no espírito para as nossas exposições de pintura.

[...] Anita Malfatti é um temperamento nervoso e uma

intelectualidade apurada, a serviço do seu século.”

- Oswald de Andrade


A consequência desse episódio foi a inevitável aproximação da pintora com o escritor, a quem posteriormente se uniriam Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia, levando à composição de um grupo de artistas vanguardistas sem um objetivo definido, mas com o ímpeto decisivo de construir uma linguagem nacional, que não apenas rompia com os velhos padrões de criação, mas também repudiava a importação de modelos de produção derivativos do modernismo europeu. Esse era O Grupo dos Cinco.


A principal força motriz das produções desse período foi a premissa de que a linguagem da arte brasileira carecia representar a essência dos elementos que compunham o cenário e o povo, apostando em liberdade linguística, formas ousadas, cores vibrantes e representações da realidade cotidiana do país. O ápice dessa euforia criativa se concretiza na Semana de Arte Moderna de 1922, organizada por esses mesmos personagens, na qual ocorre a comemoração do Centenário da Independência, consumando a radicalização e o latente desejo de renovação da primeira geração de artistas modernistas brasileiros.



Anita Malfatti (1889 - 1964)

Foi desenhista, ilustradora, pintora e professora. É conhecida por pinturas como “A Boba” (1915/1916). Em suas obras retratou temas regionalistas, mas também experimentou

outras temáticas e técnicas.


Tarsila do Amaral (1886 - 1973)

Foi pintora e desenhista. Seu trabalho é dividido entre três fases, sendo elas: Pau Brasil, Antropofagia e Social. “Abaporu” (1928) é uma de suas obras mais famosas.


Menotti Del Picchia (1892 - 1988)

Era jornalista, poeta, pintor, cronista, político, ensaísta e romancista. Dirigiu jornais como o Diário de Itapira e escreveu importantes poemas como “Moisés” (1917).


Oswald de Andrade (1889 – 1964)

Foi escritor, dramaturgo e ensaísta. Com seu temperamento irônico, escreveu para o "Diário Popular" ao longo de 1909. “Manifesto Pau-Brasil” (1925) é uma das suas obras mais famosas.


Mário de Andrade (1893 - 1945)

É um dos principais nomes da literatura brasileira. Escritor, crítico e ensaísta, é autor do aclamado “Macunaíma” (1928) e foi um dos fundadores da revista Klaxon, que tinha como objetivo divulgar a arte moderna.


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DA AUTORA: Clara é formada em Arquitetura pelo Politécnico de Milão e designer gráfica desde 2012. Trabalhou com criação de identidade visual, sites e artes gráficas para diversas empresas e profissionais autônomos. Em arquitetura já foi premiada nas competições internacionais "Kaira Looro" e "Rural School in Haiti".



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